Bancos de atacado compram carteiras de crédito consignado
Fonte: Valor Econômico
Os bancos estrangeiros com atuação de atacado no Brasil resolveram entrar na onda da compra de carteiras de crédito consignado geradas por outras instituições. O movimento, antes restrito aos bancos de varejo, chega agora a ser realizado até por tesourarias de bancos de investimento. O português Banif, o alemão WestLB, o francês Société Générale e o sul-africano Banco Standard de Investimento foram alguns dos que saíram na frente, mas hoje também bancos como o alemão Dresdner e o americanos JP Morgan e Citigroup foram vistos sondando o mercado.
“É uma questão de aproveitar oportunidades”, diz François Dossa, presidente do Société Générale do Brasil. “As margens do consignado são altas considerando-se o baixo risco de crédito”, explica. A redução nunca antes vista nos prêmios pagos pelas grandes corporações da América Latina e o alongamento de prazos dos empréstimos, mesmo para as empresas médias, têm “forçado” os bancos a procurar por novos negócios, diz Ricardo Amorim, economista-chefe do WestLB para a América Latina.
Na maior parte dos países da região, avalia ele, o movimento tem levado “a uma diversificação na oferta de instrumentos de crédito para o setor privado”. O apetite pelo crédito ao consumidor no Brasil tem aumentado. Mas o consignado é uma das principais alternativas dos bancos, pois sua estrutura reduz riscos de forma importante. No consignado puro, o banco tem acesso ao pagamento antes de o salário ou aposentadoria do tomador cair na sua conta. As operações com médias empresas e o setor imobiliário no Brasil, Chile, Argentina e Colômbia também têm atraído a atenção dessas instituições financeiras, diz Amorim.
“Temos sido consultados por um crescente número de bancos estrangeiros interessados em comprar nossa carteira”, afirma Carlos Eduardo Schahin, o Cadu, diretor-executivo do Banco Schahin, sem querer citar nomes. O banco gerou carteira de R$ 1,3 bilhão, aproximadamente, dos quais R$ 750 milhões estão em seu balanço e R$ 600 milhões foram cedidos a outras instituições.
O interesse pelos bancos de atacado estrangeiros pelas carteiras de crédito consignado começou com casos isolados, no ano passado. O apetite foi crescendo e já ajudou na redução de margens de ganho com esse tipo de crédito, de cerca de 100 pontos percentuais em um ano. “A quantidade de bancos geradores do crédito consignado, inclusive para os aposentados, também cresceu, o que contribuiu para a compressão das margens”, diz Flávio Farah, tesoureiro do WestLB no Brasil. Mas, apesar da queda, considerando-se o baixo risco, o consignado ainda oferece margens altas, avalia.
Segundo ele, há uma demanda dos bancos de atacado e de investimento por crédito no mercado brasileiro em geral, principalmente o que possui risco mais reduzido. “A expectativa de o país virar grau de investimento gera um interesse por ativos brasileiros, que tendem a se valorizar”, conta.
Farah citou como exemplo, além do crédito com desconto em folha, os Fundos de Investimento em Direito Creditório (FIDCs), por meio dos quais os bancos podem comprar cotas com garantias em recursos a receber dos mais diferentes tipos de créditos. O Dresdner e o Banco Standard também têm mostrado interesse nos FIDCs. Consultado sobre o crédito consignado, o Citigroup não se pronunciou. O JP Morgan informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que, por enquanto, não tem crédito consignado em sua carteira.
Alguns bancos de atacado ou de investimento, que no ano passado já compravam carteiras, estão agora dando os primeiros passos para gerar as suas próprias. É o caso do Banif – Banco Internacional do Funchal (Brasil), que está montando a sua operação na área. Para isso, contrato, em dezembro, Ricardo Pastore Marques, que era diretor do banco do Banco Alfa, em Brasília.
O crédito consignado permite ao Banif “entrar no varejo sem precisar de uma ampla rede de agências”, diz Marques, superintendente comercial. Os recursos são distribuídos por correspondentes bancários, explica. O Banif tem seis agências em São Paulo e Rio de Janeiro, número que deve dobrar a curto prazo. O negócio, segundo Marques, é vantajoso para o banco porque a inadimplência é baixa; e para o cliente, porque o juro é inferior ao de outras alternativas.
O Banif já fez convênios com 40 empresas e tem uma carteira de crédito consignado de R$ 180 milhões, pouco mais da metade da carteira total de crédito de R$ 325 milhões do banco no país. São operações com aposentados e funcionários da ativa, de empresas públicas e privadas.
O Société Générale também avalia gerar seu próprio crédito consignado. O banco comprou o Pecúnia, especializado no crédito para a compra de automóveis, material de construção e vestuário. Agora, quer avançar rapidamente em outras modalidades para o consumidor do Brasil, diz Jean-François Gautier, chefe mundial para os serviços financeiros especializados.
